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domingo, 12 de fevereiro de 2017

Capítulo 5

Sexta-feira, 19 de agosto. Júlia estava em casa com o seu marido. Era manhã, as meninas se encontravam na escola. O celular de Júlia tocou.
..........- Alô, Luciana, como vai?
..........- Olá, Júlia. Eu estou ótima. E você?     
..........- Muito bem, obrigada. Como foi a viagem?        
..........- Estava sensacional. Eu fui uma das organizadoras da conferência, cujo palestrante foi Divaldo Pereira Franco.
..........- E a palestra foi boa?
..........- Está brincando comigo, Júlia? Divaldo é espetacular. Conseguiu prender a atenção de todos por 90 minutos.
..........- Nossa, conseguir segurar um público por uma hora e meia é muita coisa. Mas fale aí, Luciana, quando virá nos visitar.
..........- Bem, cheguei em casa hoje. Estou organizando muitas coisas aqui, mas pela tardinha terei terminado. O que acha se eu chegar aí por volta das 20h, amiga?
..........- Está ótimo. Venha jantar conosco, então.
..........- Combinado. Até à noite, Júlia. Beijos.
..........- Até lá. Beijos.
..........- Então a sua amiga virá hoje à noite. Isso é muito bom.
..........- Também acho, querido. Já estamos aqui há dois meses e esta será a nossa primeira visita.
..........- Isso porque os nossos vizinhos são estranhos. Desde que chegamos aqui, tentamos fazer a amizade com os mais próximos à nossa casa, mas eles não abrem a porta ao verem que somos nós.
..........- Esta cidade é diferente da nossa, querido. As pessoas gostam de viver isoladas neste lugar.
..........Rodrigues ficou pensativo. Após o episódio da bagunça no quarto de Tassiane, o homem sugeriu que conseguissem um psicólogo para a filha. Júlia recusava a ideia de um psicólogo, receosa de que ele pudesse indicar um psiquiatra. Por esse motivo, jogava a culpa na casa. Quando quis comentar com a mulher que a menina agia assim porque sentia falta de seus amigos e queria, portanto, voltar para Uruguaiana, a mulher o questionou sobre o porquê dela não ter feito isso na casa que haviam alugado. Ficaram vários meses ali sem qualquer incidente. Na casa nova, porém, bastou três semanas para que coisas ruins começassem a acontecer. A lógica de Júlia o desarmara, pensou Rodrigues, infeliz. Mas continuaria procurando motivos para levar a filha a um psicólogo.
               
..........- A janta estava ótima, Júlia. Você sempre foi uma excelente cozinheira – elogiou Luciana.
..........Júlia sorriu. Sentia-se feliz com a presença da amiga em sua casa. Rodrigues também estava satisfeito. Provara que o fato de ninguém querer entrar em sua casa não passava de coincidências. Os homens que o ajudaram na mudança estiveram no interior do casarão. E agora a amiga de Júlia também se encontrava ali. Não havia nada de errado com a casa, como Júlia e Tassiane afirmavam. O estranho é que, em alguns momentos, até ele achou que tivesse alguma coisa esquisita em sua residência. Mas sabia que estava errado. Júlia e Tassiane também estavam.
..........- Que tal irmos para a sala? – convidou Rodrigues.
..........Todos dirigiam-se à sala. Luciana sentou-se no sofá que tinha dois lugares, com Maria Alice ao seu lado. Rodrigues, Júlia e Tassiane ocuparam o sofá de três lugares. Luciana continuou a narrar casos bem interessantes. Sendo ela espírita, sabia de muitas histórias e tivera participações em várias outras.
..........Em determinado momento, Luciana parou de falar e fixou o olhar em Tassiane. Rodrigues e sua família se entreolharam em silêncio. Olhavam para Luciana, que mantinha seu olhar fixo em Tassiane, sem dizer uma única palavra.
..........- Há uma presença nesta casa – falou a mulher de repente, olhando para Júlia. – É uma presença maligna. E você sabe. Você também sentiu – disse, voltando a olhar para Tassiane.
..........- Luciana, por favor, está assustando as crianças – alertou Rodrigues.
..........Luciana levantou a mão, indicando ao homem que fizesse silêncio.
..........- Há um perigo muito grande aqui – falou, levantando-se. Os outros também se colocaram em pé. - Coisas muito ruins aconteceram nesta residência – disse a mulher, subindo a escada. Os outros a seguiram.
..........Luciana chegou ao quarto de Tassiane.
..........- Coisas horríveis aconteceram no porão desta casa. Mas a pior coisa que houve, ocorreu neste quarto.
..........Luciana começou a se sentir mal. Escorou-se na parede, para evitar cair no chão. Sentia-se fraca.
..........- Tenho que sair daqui – disse a mulher, sendo amparada por Júlia. - Devo sair agora desta casa. O que quer que exista aqui é maligno e forte demais. Não sei se pode ser enfrentado.
..........Júlia ajudou a amiga a chegar à porta da frente. Luciana saiu para a área e sentiu-se um pouco melhor.
..........- Vocês correm perigo aqui. Um grande perigo. Principalmente você – disse a mulher, olhando para Tassiane. Saiam enquanto podem.
..........Luciana virou-se e correu. Saiu da casa como se tivesse fugindo de um predador. Rodrigues e sua família ficaram estacados na área, perplexos, observando a mulher entrar no carro e partir sem a menor cerimônia.
..........- Que mulher maluca! – falou Rodrigues, quebrando o silêncio.
..........Tassiane olhou para o seu pai. Sentia-se frustrada com o seu ceticismo. Desta vez, nem tentou discutir. Sabia que não adiantaria. Virou-se e começou a andar.
..........- Tassi, aonde você vai? – perguntou a mulher, tentando entender o que Luciana dissera.
..........Tassiane virou-se.
..........- Vou para o meu quarto, mãe. Você e o pai já devem ter percebido que é bem seguro por lá...
..........- Filha...
..........- Deixe-a. Não alimente suas fantasias sobrenaturais.
..........Júlia ficou sem saber o que fazer. Nunca acreditara em nada e não pretendia começar agora. Luciana e Tassiane pareciam convictas do que diziam. Porém, ela, Maria Alice e o marido não tinham visto nada de anormal.
..........- Venha, querida, eu a ajudo com a louça. E, você mocinha, para a cama.
..........- Mas, pai, hoje é sexta-feira – falou Maria Alice.
..........- E daí?
..........- Daí que amanhã eu não vou ter aula.
..........- Não importa. Vá para o quarto agora.
..........Júlia e o marido dirigiam-se à cozinha. Em instantes, tudo estava limpo e organizado. Logo estavam no quarto.
..........- Parece pensativa, meu bem.
..........- Você não acredita mesmo na Luciana, não é?
..........- Júlia, a Luciana é pirada. Você não viu o que ela fez
..........Rodrigues suspirou e prosseguiu:
..........- Querida, quem, em sã consciência, vai interromper uma conversa para começar a falar um monte de asneiras e, em seguida, sair correndo da casa que está visitando, como se estivesse sendo perseguido por um assassino?
..........- Tudo bem, tudo tem uma explicação científica, certo?
..........- Certo.
..........- Então explique como ela sabia que Tassiane tinha sentido algo estranho nesta casa e como foi direto ao quarto dela, dizendo que ali algo muito ruim tinha acontecido.
..........- Talvez você tenha dito algo a Luciana e ela deduziu a história.
..........- Eu não disse nada.
..........- Talvez ela tenha inventado e acertou na mosca.
..........- Improvável. As chances disso acontecer seriam a de uma em um milhão. 
..........- Tudo bem. Vamos fazer assim: você, eu e a Alice não vimos nada de anormal, certo?
..........- Certo.
..........- Luciana falou que algo horrível aconteceu no quarto ocupado por Tassiane, é isso?
..........- Sim.
..........- Bem, se isso for verdade, então explica o porquê de apenas Tassiane ter visto algo. Assim, vamos mudá-la de quarto e tudo será resolvido, está bem?
..........- Tudo bem, acho que vale a pena tentarmos – concordou a mulher.

..........Tassiane estava em seu quarto. Terminara de ler “As Crônicas de Nárnia” e agora lia “O Jardim da meia-noite”, de Philippa Pearce. O livro não era volumoso, pensou a menina. Logo retornaria à biblioteca para trocá-lo.
..........Alguns minutos depois, sentiu vontade de ir ao banheiro. Posicionou o marcador de página no livro, fechou-o e colocou-o sobre a cômoda. A casa tinha dois banheiros, um em cada pavimento. Tassiane começou a caminhar pelo corredor e logo entrou à direita. Ao entrar no outro corredor, a garota viu que Maria Alice estava caminhando à sua frente, quase alcançando o sanitário.
..........- Alice – falou Tassiane, em voz alta, abanando para a irmãzinha.
..........Maria Alice parou, olhou na direção da irmã e entrou no banheiro. Tassiane estranhou a irmã. Correu até o banheiro e ficou na porta, olhando para a menina que estava em pé, de costas para ela.
..........- Alice?
..........- O que foi?
..........Tassiane olhou para a esquerda. Maria Alice estava no corredor, a vários metros do banheiro. Voltou a olhar para dentro do banheiro, e a menina que estava parada havia sumido. Tassiane arrepiou-se. Saiu correndo dali, pegou a irmãzinha pelo braço, puxando-a com força.
..........- O que foi? – perguntou a garotinha, confusa.
..........- Corre – respondeu Tassiane, levando Maria Alice para o seu quarto.

Capítulo 5

A princesa chegou ao castelo rapidamente. Estava radiante com o seu relacionamento com Cristofer. Jamais imaginou que a família do rapaz fosse tão pobre, mas isso não importava nem um pouco. Ela o amava e isso bastava. Seus pais teriam uma agradável surpresa quando apresentasse a eles o namorado, pensava a menina. Certamente iriam gostar de Cristofer, pois era um rapaz encantador. Com este último pensamento feliz, entrou em seu castelo.
Ana Clara percebeu que seu pai conversava alegremente com um homem que se tratava de outro rei. Ao avistá-la, chamou-a com entusiasmo.
A garota aproximou-se, observando que o tal rei estava acompanhado de um rapaz que, aparentemente, era um príncipe; também estavam próximos àquele rei sete homens, totalmente vestidos de preto e fortemente armados. O que estaria acontecendo?
- Filha, este é o rei Sebastian – disse o rei Xavier, estendendo graciosamente o braço na direção do homem.
Ana Clara aproximou-se, inclinou um pouco o corpo e cumprimentou-o.
- Olá, rei Sebastian, é uma honra conhecê-lo.
O homem sorriu, abaixou-se e beijou a princesa na testa.
- A honra de conhecê-la é toda minha, princesa -  disse o homem, após beijá-la.
- E este é o príncipe Karus – falou o rei Xavier.
- Príncipe... – disse Ana Clara, estendendo a mão direita em direção ao rapaz.
Karus pegou a mão de Ana Clara e a beijou.
- Faço minhas as palavras de meu pai, princesa – disse o rapaz, com um largo sorriso.
- Filha, você já é uma mocinha - comentou o rei Xavier.
- Realmente. E eu diria que é uma moça muito bonita – concordou o rei Sebastian.
- Tem razão, pai – disse o príncipe Karus.
Ana Clara olhou, curiosa, na direção do rei Sebastian e seu filho. Alguma coisa parecia errada com eles. Ambos exibiam um olhar de espertalhão e um sorriso enigmático.
Sem saber direito o porquê, Ana Clara começou a se sentir incomodada com a presença deles. Algo estava errado. O que seria?
- Bem, filha, chega um momento em nossas vidas em que devemos começar a pensar no futuro.
- É verdade, princesa. Além do mais, nesses tempos turbulentos, nada como os reinos unirem suas forças – falou o rei Sebastian.
- Eu não estou entendendo... – respondeu Ana Clara, cuja sensação de mal-estar, por algum motivo, aumentava.
Ana Clara olhou para sua mãe, que ainda nada falara. A mulher apenas a observava, como se a estivesse estudando.
- Filha, eu já ia chegar ao ponto comentando pelo rei Sebastian. Os tempos são difíceis, luta-se muito pela paz que o mundo não consegue alcançar.
O rei Xavier fez uma pausa dramática, como que para dar ênfase às suas palavras. Em seguida, prosseguiu:
- Você é uma princesa e tem uma enorme responsabilidade nas mãos. Ana, seu dever é ajudar o reino a conquistar a paz tão desejada.
- Pai, sinceramente, não estou entendendo nada. O que está acontecendo, afinal de contas?
Por um momento, reinou o silêncio. Ana Clara olhou para sua mãe, que ainda nada falava; olhou para seu pai, que parecia pensar no que responder; por fim, mirou os olhos na direção do rei Sebastian e seu filho, que ainda mantinham aqueles olhares e sorrisos desagradáveis.
- Creio que uma abordagem direta será mais eficaz, rei Xavier – falou o rei Sebastian. – Permita-me.
Todos olharam para o rei Sebastian. Ana Clara teve a impressão de que ouviria algo realmente desagradável.
- Muitas guerras estão sendo travadas – falou o homem. – Embora o rei Xavier tenha anexado várias cidades aos seus domínios, o reino Flor-de-lis está longe de ser um império. Desta forma, se unirmos a cidade de seu pai com a minha, alcançaremos rapidamente o nosso grande objetivo e ninguém mais ousará nos fazer frente.
O rei Sebastian faz uma pausa. Ana Clara tentou imaginar como aquela história acabaria e o que ela teria a ver com tudo isso. Mas estava confusa demais para ordenar os pensamentos. Restava apenas escutar o que aquele rei tinha ainda a lhe dizer.
- Bem, toda princesa um dia irá casar-se com alguém. E quem melhor do que um príncipe para ser o seu marido?
A princesa desviou os olhos do rei Sebastian, mirando o olhar no príncipe Karus. Embora não quisesse acreditar que tivesse ouvido as últimas palavras daquele rei, Ana Clara percebeu que as coisas agora começaram a fazer sentido; o homem queria unir os dois reinos através do casamento dela com o príncipe.
- O senhor não quis dizer isso – falou Ana Clara, olhando na direção do rei Sebastian.
O rei Sebastian nada respondeu. Apenas olhou fixamente na direção do rei Xavier.
- Filha, já está tudo arranjando – explicou o rei Xavier. – Você terá a oportunidade de casar-se com este rapaz de agradável aparência e, com isso, tornará os nossos reinos uma grande nação.
Ana Clara olhou para o príncipe Karus. Seu pai tinha razão, o rapaz era bonito. Porém, aparência não era tudo e seu grande amor se chamava Cristofer.
- Pai, eu já tenho um namorado. O nome dele é Cristofer e combinamos de apresentá-lo ao senhor e à mãe no próximo domingo.
- Você está namorando? – perguntou a rainha. – Mas por que nunca nos disse nada a respeito?
- Faz pouco tempo que conheci o Cristofer, mãe. Só dois meses.
- Xavier, esta é uma situação familiar que eu espero ser resolvida logo – falou o rei Sebastian.
- Sim, Sebastian, asseguro-lhe que tudo está sob controle. As peças se encaixarão em seu devido tempo.
Ana Clara olhou para seu pai, não querendo acreditar no que acabara de ouvir. Sua mãe tampouco lhe apoiou contra tamanho absurdo. Não imaginava que seus pais, seus próprios pais, não se importariam em destruir a felicidade que conquistara há tão pouco tempo. A garota desviou os olhos de todos, imaginando o porquê de ninguém se preocupar com os seus sentimentos. O que fizera para merecer isso? Sempre fora uma boa filha, qual o motivo para ser tratada desta maneira?
- Princesa, você não vem? – perguntou Raimundo, um dos mensageiros do rei.
Ana Clara olhou para o homem, o pensamento voltando à realidade, o rosto abatido.
            - O quê? Ir aonde?
            - Jantar, princesa. Todos já estão na sala de refeições, esperando você.
            Ana Clara olhou ao redor, confusa. Perdera-se em pensamentos e nem reparou que seus pais e os convidados não se encontravam mais por perto.
- Não, Raimundo, estou sem fome. Avise os meus pais que vou direto para o quarto, pois estou muito cansada e quero dormir logo.
- Sim, princesa – respondeu o homem, fazendo uma pequena reverência e indo em direção à sala de refeições.
Ana Clara encaminhou-se para o seu quarto, sentindo a depressão tomar conta de si. O dia havia sido maravilhoso. Conhecera os pais de Cristofer e passara momentos agradáveis em sua companhia. Na semana seguinte, faria uma surpresa aos próprios pais, apresentando-lhes o namorado. Mas tal felicidade durara somente até colocar os pés no castelo. Ali, em sua própria casa, conhecera o arrogante rei Sebastian e seu estúpido filho, que traziam a proposta que a afastaria de Cristofer para sempre.
A garota entrou em seu quarto, atirando-se na cama sem trocar a roupa. Deitada de costas, os olhos apontando para o teto, mirando o infinito, tentou ver algum sentido em tudo aquilo. Seu pai havia feito muitas guerras, o reino agora era imensamente forte. Mas o poderoso rei Xavier parecia temer o rei Sebastian. Que tipo de rei era aquele homem? Como seria o reino que governava? O que teria feito aquele homem para que seu pai tivesse medo dele? Ana Clara não fazia ideia. Era como se estivesse tentando montar um quebra-cabeças com a maioria das peças faltando. O que faria agora?
Ana Clara demorou a dormir. Quando finalmente conseguiu, teve um terrível pesadelo: sonhou que estava na garupa do cavalo conduzido pelo príncipe Karus. Enquanto segurava a cintura do príncipe com a mão direita, virava-se para trás e abanava com a mão esquerda para Cristofer, em sinal de despedida. Suas lágrimas escorriam abundantemente pelo rosto, ao saber que jamais voltaria a ver o seu verdadeiro amor.

Ana Clara acordou-se em prantos. Foi direto ao sanitário banhar-se e trocar a roupa. Embora ainda faltasse um bom tempo para amanhecer, não queria voltar a dormir. Após o banho, sentou-se em sua cama e ficou olhando pela janela, esperando o sol nascer.

Capítulo 5

Uma nova rotina

            Renam, Naêmia e Joshua estavam se dirigindo ao castelo. Era cedo, tinham feito sua primeira refeição do dia e agora caminhavam em direção a sua nova morada. Enquanto andavam, Joshua lembrava-se de algo dito por Renam na noite anterior. O jovem monge falara que o reino possuía uma fama terrível, mas não compreendia o motivo, pois o único problema que encontrara foi o assalto que havia evitado na estalagem. Isso era algo que Joshua também não conseguia entender. A cidade era bonita, organizada e segura. Por que tinha a fama de “a cidade mais perversa do mundo”? É claro que o reino estava a expandir seus domínios, mas isso não era motivo suficiente para ter uma visão tão terrível de Damaris e seu governante. Como se não bastasse, restava a questão do armazém da estalagem. Um assunto delicado, que teria que ser resolvido num momento mais oportuno. Renam teria que ouvir algumas coisas. Certamente que teria…
            Divagando em seus pensamentos, o bruxo nem reparou que se encontravam tão próximos do castelo. Assim, bastou entrar à direita na outra esquina, caminhar mais um pouco, atravessar um pequeno bosque e estavam diante da mansão mais uma vez.
            — Desejamos falar com o rei — disse Renam aos guardas que ficavam em frente à porta de entrada. — Sou o monge Renam e estamos aqui a seu pedido.
            Um dos guardas deu meia volta, entrou no castelo e, momentos depois, as portas se abriam para os três visitantes.
            Renam, Joshua e Naêmia caminharam pelo longo tapete vermelho em direção ao rei, que estava em seu trono.
            — Bom dia, cavalheiros, espero que tenham refletido sobre a minha proposta e me tragam uma resposta que vá de encontro a meus interesses.
            — Bom dia, majestade — disseram, em uníssono, os três.
            — Rei Julian, discutimos o assunto ontem à noite e chegamos a uma conclusão — disse Renam, fazendo uma pausa. — Acreditamos que sua oferta é generosa e, portanto, vamos aceitá-la.
            — Excelente, cavalheiros. Tenho certeza de que sua estadia em meu castelo será muito agradável.
            Direcionando seus olhos muito brilhantes para Renam, o rei prosseguiu:
            — Você, meu jovem, estará com o mestre Ryan, treinando o tempo todo. Os monges são a maior segurança que posso proporcionar a este castelo e, consequentemente, a mim mesmo. Dessa maneira, é justificável o investimento que faço neles.
            O rei respirou para tomar fôlego e continuou sua fala:
            — Joshua, creio que terá um grande valor para mim se ajudar o nosso feiticeiro. Ninguém ainda quis se candidatar ao cargo. O que me diz? É claro que respeitarei sua resposta, mesmo ela sendo negativa. Entendo o receio que as pessoas têm da bruxaria.
            — Ficarei encantado, majestade. Não há necessidade de se preocupar comigo. Sou um homem de idade e não sinto medo facilmente.
            — Muito bem, então. Jeofrey ficará satisfeito de ganhar um auxiliar. E quanto a você, Naêmia, teria alguma sugestão para mim?
            — Gosto de cozinhar, majestade.
            — Ótimo. Michel está mesmo precisando de mais ajudantes. Muito bem, senhores, creio que isso é tudo. Josef, acompanhe os cavalheiros até seus respectivos ambientes.
            Renam, Joshua e Naêmia acompanhavam o segurança, cada um sendo deixado em um local diferente. Josef apresentou Naêmia ao chefe de cozinha, Joshua ao feiticeiro e, em seguida, conduziu Renam à sala de treinamento dos monges.
            O jovem guerreiro treinou até o momento do almoço. Chegando à cozinha com seus colegas monges, varreu o ambiente com o olhar, a procura de Naêmia e Joshua. Naêmia devia estar atrás da fileira de estantes de mantimentos, que dividia a cozinha em duas partes: numa, as pessoas sentavam-se às mesas para se alimentar; na outra, preparava-se os alimentos. Era impossível ver a amiga através das estantes, tão lotadas de alimentos que estavam. Além disso, a fileira de estantes se estendia por quase toda a largura da sala, deixando apenas uma estreita passagem entre as duas partes que formavam a cozinha.
            — Algum problema, companheiro? — Perguntou Kevin, seu colega de treinamento.
            — O quê? Ah, é que a minha mulher trabalha aqui. Esperava vê-la — respondeu Renam.
            — Bem, então relaxe. Logo servirão a comida e talvez você a veja — disse o rapaz, simpaticamente. — Vamos, sente-se — completou, puxando uma cadeira para Renam.
            — Obrigado — respondeu o jovem guerreiro.
            Renam estava curioso para encontrar seus dois acompanhantes e perguntar-lhes se haviam descoberto algo. Todavia, imaginava que estivessem tão atarefados, que não tiveram tempo para investigações. Enquanto ele estava treinando, Naêmia cozinhava e Joshua ajudava o bruxo do reino. Mas, como diz a expressão “nunca se sabe”, talvez um dos dois tivesse descoberto algo.
            Em determinado momento, dois homens apareceram na parte de refeições da sala, carregando uma enorme panela através da estreita passagem entre a estante e a parede. Colocaram a panela sobre a mesa mais próxima e começaram a servir o almoço. Os monges se levantavam com um prato na mão e, em fila, dirigiam-se até os homens para que fossem servidos.
            Ao retornar a seu lugar, Renam sentou-se e começou a comer. Mal havia iniciado sua refeição quando reparou que um grupo de quatro pessoas saiu da outra parte da cozinha carregando cestos, sendo dois deles cheios de frutas e os outros dois com pães. Ao passo que os cestos com frutas eram carregados por dois homens, os que continham pães eram levados por mulheres. Mas nenhuma das duas era Naêmia.
            O monge terminou a refeição com duas frutas, pão e um copo de suco, que fora servido logo em seguida. Várias outras pessoas começavam a entrar na sala e ocuparem diversas mesas que ainda estavam vazias, no momento em que Renam levantou-se. Procurou, com o olhar atento, por Joshua, mas ele não estava naquele grupo que agora esperava sua vez de ser servido. O jovem guerreiro não poderia esperar mais tempo ali, pois quase todos os monges haviam saído do refeitório. Dessa maneira, decidiu que era hora de sair também.
            Renam se dirigia por um corredor para ir em direção à sala de treinamento dos monges quando ouviu alguém gritar:
            — Ei, rapaz, onde está indo? — perguntou Kevin.
            — Estou retornando ao treinamento.
            — Treinamento? Agora? Ah, não, após o almoço sempre vamos à biblioteca.
            — É mesmo?
            — Claro. Por favor, não me diga que não é adepto da leitura. Nunca vi, em toda a minha vida, um monge que não gosta de ler.
            — Eu adoro a leitura. Meus pais sempre compraram livros, por isso temos a nossa biblioteca particular.
            — Puxa, mas que bacana. E quantos volumes tem em seu acervo?
            — Cerca de quarenta mil. É claro que eles não conseguiram ler nem a metade, mas o fato é que simplesmente adoram livros e ficaram a vida toda adquirindo lançamentos novos.
            — Caramba, seus pais devem ter muito dinheiro. Já os meus tiveram sempre que controlar seus gastos. Éramos em quatro irmãos e significávamos uma despesa muito grande para eles, que não tinham um salário muito bom. Quando tinha a idade de doze verões, apresentei-me ao rei para ser incorporado ao grupo de monges, em troca de um pequeno saldo que ele pagasse a minha família. Os monges não têm salário, mas suas famílias recebem um apoio financeiro do rei. Com uma só cajadada, consegui matar dois coelhos: tornei-me uma boca a menos para ser sustentada, na medida em que passei a morar no castelo, e ainda garanti um dinheiro extra para ajudar minha família. Uma estratégia inteligente, não? — comentou o rapaz, com um sorriso.
            Renam retribuiu o sorriso, mas sentia-se com o coração partido. Diferente desse rapaz, ele nunca passara necessidades. Não sabia o que era a pobreza. Seus pais, comerciantes bem sucedidos, garantiam-lhe que sempre vivesse na abundância. Mesmo assim, Renam tornara-se um monge. Não para ajudar financeiramente sua família, mas por opção. As artes marciais eram a paixão de sua vida, desde a sua infância.
            — Finalmente chegamos. Você já esteve aqui antes, Renam? — perguntou o monge, todo empolgado com o momento de leitura.
            — Fizemos uma visita rápida, meu sogro, minha mulher e eu, na companhia do rei.
            — Bem, tratemos de escolher logo material de leitura, antes que termine o nosso tempo.
            Renam e Kevin dirigiram-se a uma estante e cada um pegou um livro. Renam notou que o livro retirado pelo companheiro era bem volumoso e possuía um marcador de página em seu centro. Sentou-se ao lado dele e começou a ler o livro, enquanto o outro continuava a leitura do seu. Renam não havia mentido para Kevin. Ele realmente gostava de ler. O problema era que ali, no reino de Damaris, ele estava numa missão. Por esse motivo, embora o livro que estivesse em suas mãos narrasse uma história muito interessante, o monge simplesmente não conseguia ler com atenção. Enquanto seus olhos percorriam as páginas, lembrava-se do que havia discutido com Joshua e Naêmia na noite anterior. Na conversa, os três imaginaram que o único momento que teriam para investigar seria nas altas horas da noite, quando os moradores do castelo estivessem dormindo. Mas talvez Joshua e Naêmia pudessem ter tido mais sorte que ele. Talvez pudessem, mesmo atarefados como deveriam estar, ter descoberto algo. Mas Renam não os viu na cozinha, e também não se encontravam na biblioteca. Ainda restaria o café da tarde e a janta. Porém, estava certo quando imaginou que os veria somente após a última refeição.




            Renam estava em seu quarto, sentado na cama, quando percebeu que a porta se abria para Naêmia entrar.
            — Naêmia, finalmente. Conseguiu descobrir algo?
            — Não, estive ocupada o dia inteiro. Havia muito trabalho naquela cozinha.
            — Bem, resta-nos saber se Joshua teve mais sorte que nós. Em caso negativo, teremos que dar prosseguimento ao plano inicial de explorar o castelo na calada da noite.
            — Aparentemente, permanecerá totalmente iluminado. Do contrário, como os vigias conseguiriam fazer a ronda?
            — Sim, concordo com você. Vamos esperar Joshua para traçar um plano de exploração — concluiu o monge.
            Renam e Naêmia permaneceram alguns momentos em silêncio. Porém, não precisaram esperar muito, pois logo a porta de seu quarto se abria para que Joshua pudesse entrar.
            — Olá, vocês estão bem?
            — Sim, Joshua, obrigado — respondeu o monge. — Não conseguimos descobrir nada ainda. E você?
            — Passei o dia todo bancando o auxiliar do bruxo do reino. Separei ingredientes, preparei poções, este tipo de coisa. Estive muito ocupado, como podem ver.
            — Bem, então devemos seguir o plano original — disse o monge.
            — Sim — concordou Naêmia. — A questão é como iremos executá-lo.
            — Devemos considerar o tamanho da área a ser explorada e o tempo limitado para isso — falou o bruxo. — Todo o tempo que pudermos ganhar será bem vindo.
            — Certamente — concordou o monge. — Somos três, portanto devemos nos separar.
            — Mas se um de nós for pego, haverá pouquíssima chance de sobrevivência — disse Naêmia, nervosamente.
            — Um risco que teremos de correr — falou o bruxo. — O que mais podemos fazer?
— Mesmo nos separando, será muito difícil localizarmos a pedra. O castelo é gigantesco – retrucou Naêmia.
            — Sim, mas infelizmente não temos escolha — disse, sombriamente, Renam.
            — Mas e as portas? Como as trancaremos pelo lado de fora? — questionou Naêmia.
            — Está esquecendo que eu sou um bruxo? Lançarei um feitiço que permitirá às portas se abrirem ao toque de nossas mãos.
            — Resta-nos agora definir a direção que cada um seguirá — comentou Renam.
            — Ao sairmos do quarto, se andarmos à esquerda e caminharmos até o final do corredor, chegaremos a uma divisão em formato T. Naêmia poderá seguir para um lado e eu para outro. Você, Renam, pode caminhar à direita ao sair do quarto. Chegará numa sala ampla que dará acesso a várias outras.
            Renam e Naêmia concordaram com a idéia de Joshua. Os três ficaram um longo tempo em silêncio, esperando que os ocupantes do castelo estivessem dormindo profundamente. Então, com um aceno positivo de cabeça, Joshua falou:
    Chegou o momento.
Renam e Naêmia concordaram com um aceno de cabeça. Joshua encaminhou-se para o seu quarto, enquanto Renam vestia-se no reservado, deixando o quarto livre para Naêmia. Seus trajes de combate eram vestimentas pretas que cobriam o corpo inteiro e um capuz que escondia quase todo o rosto, deixando apenas os olhos à vista. Joshua encontrou seus colegas em frente ao quarto ocupado por Renam e Naêmia e, com um gesto, selou a porta do quarto do “casal”.
            — Tenham cuidado – despediu-se Renam.

            — Você também — responderam.